PARA SER UM IRONMAN BASTA SE MEXER

Há dois anos eu estreei no triathlon. Lembro que tinha nadado no mar apenas uma vez antes de encarar a prova. Foram só 750 metros, nada próximo aos 3,8km do Full Ironman feitos 7 meses depois. Mas o suficiente para quebrar o receito e encarar os desafios que o nada-pedala-corre oferece e aprender o que este esporte tem a nos ensinar na vida pessoal e profissional.

O que importa é que nossos objetivos sejam traçados conforme nossas habilidades e capacidades, sempre na busca por superar algum limite, que pode ser real ou, muitas vezes, imposto pela nossa própria cabeça.

Estou longe de ser um atleta. Admiro os “amadores de elite”que existem por ai. Mas uma das coisas que me motivam neste esporte é justamente você poder participar de competições sem ser profissional, ou sem ser um amador muito bom. É você contra você e isto é tudo que interessa. Faço a reflexão que em todas as nossas metas, sejam elas pessoais ou profissionais, não precisamos ser os melhores para tentar alcançá-las. Basta que tracemos o caminho a ser seguido e tenhamos a atitude de sair da inércia.  O que importa é que nossos objetivos sejam traçados conforme nossas habilidades e capacidades, sempre na busca por superar algum limite, que pode ser real ou, muitas vezes, imposto pela nossa própria cabeça. “Nunca vou conseguir fazer um Ironman.” Isto é um exemplo de uma barreira colocada de forma inconsciente. Da mesma forma, “nunca vou ser um campeão de Ironman” pode ser, neste momento, um limite real. O importante, em todos os casos, é ter consciência da onde se está e aonde se quer chegar. A diferença entre os dois exemplos acima será a intensidade dos treinos e o tempo para alcançá-los. Mas nenhum dos dois são impossíveis. Uma grande referência neste assunto é a atleta Rachel Joyce, que se tornou profissional apenas aos 30 anos e ganhou o mundial da ITU aos 33. Ou então nossa Ariane Monticeli, que se tornou exclusivamente atleta de triathlon com 29 anos e foi campeã do Ironman Brasil, aos 32.

Nada ruim pode vir de um ato de ajuda. O resultado será sempre positivo.

Outro ponto que me fascinou no esporte é a camaradagem que existe entre os praticantes e espectadores, nos treinos e nos eventos de competição. Já pratiquei muitas atividades esportivas, e sempre presenciei “rivalidade” e “ódio”, muito mais do que “ajuda” e “amor”. Em esportes coletivos, aonde existem times, como basquete, futebol, vôlei, hóquei (todos os quais eu já pratiquei), é muito comum a cena de ver torcedores xingando uns aos outros, muito mais que incentivando seus próprios times. Não é à toa que vemos brigas entre torcidas a todo momento. Da mesma forma, em outros esportes individuais, como artes marciais (dentre as que pratiquei, judô e muay thai), as equipes também se odeiam. Já presenciei diversas brigas fora de ringues apropriadamente colocados para receber o evento. Pessoas em combate simplesmente por que alguém é de outra academia. Sei que a culpa não é do esporte, mas do ser humano. Por isso, preferi escolher uma modalidade aonde os seres humanos se respeitam, de forma geral, e não o contrário. Posso citar como maiores exemplos os Ironman Brasil 2014 e 2015. No ano passado, presenciamos uma das maiores batalhas já vistas nos 13 anos (até então) do evento em Florianópolis. Igor Amoreli e Santiago Ascenço corerram lado a lado por vários quilômetros, com total tolerância e respeito. Por fim, Igor ganhou. Este ano, Ascenço parou no meio da prova, porém, ficou até o final torcendo pelo Igor, de outra equipe, pois era o brasileiro mais bem colocado. No final, Santiago incentivava Igor para acelerar e conseguir finalizar abaixo de 8 horas. Nunca vi um vascaíno torcendo para o rival do Flamengo numa final de campeonato em que o Vasco não se classificou. Na vida profissional o exemplo pode se repetir. Eu não preciso desejar o mal do outro para que eu evolua na carreira. Eu posso, sim, ajudar o colega, sócio, amigo e ter sucesso ao mesmo tempo que isso não vai prejudicar o meu. Seja essa pessoa a quem ajudo da minha empresa ou da concorrência. Nada ruim pode vir de um ato de ajuda. O resultado será sempre positivo.

O simples ato de mudar o ambiente aonde se tenta achar a resposta para um problema pode ser esclarecedor por si só.

Ainda, o triathlon me fez relembrar que a vida não é só trabalho e salário e que não devemos viver para trabalhar, mas o contrário. É preciso balanço em nossas ações e, neste caso, o triathlon é um dos meus hobbies e me ajuda a tirar a cabeça das preocupações. Às vezes, na verdade, quando não consigo “desligar” da profissão ou de outros pontos da vida, nadar, correr ou pedalar me ajuda a raciocinar melhor. O simples ato de mudar o ambiente aonde se tenta achar a resposta para um problema pode ser esclarecedor por si só. É você saindo da caixa para poder o olhar aquilo que lhe preocupa da mesma forma. Lembro que na época de faculdade, às vezes, ficava até tarde resolvendo os exercícios de Microeconomia. Chegava uma hora que simplesmente não havia mais sinapse. A informação não saia nem chegava a lugar nenhum. Porém, após deitar e dormir, não era incomum acordar com a resposta do problema na ponta da língua, ou dos dedos. Da mesma forma, não foram poucas as vezes em que durante uma sessão de treino achei uma forma diferente de fazer algum negócio, ou montar alguma proposta.

Esses últimos dois anos tiveram, de fato, impacto significante em minha vida. Ao invés de ir dormir às 5h, depois de uma festa, passei a acordar neste horário para ir pedalar, incluindo sábados, domingos e feriados. Troquei as batidas de Belvedere por shakes de suplementos; o sofá, pela estrada; o industrializado, pelo natural. O triathlon me mostrou que, para ser um Ironman, basta se mexer.

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