SUPERE-SE

Alguns momentos da vida são verdadeiros divisores de água. Eles aparecem de repente, sem que pensemos muito sobre o assunto. São lapsos de realidade, de consciência, que nos fazem mudar completamente algum comportamento que praticávamos. É como se todos aqueles avisos de “isto não está certo” finalmente fizessem sentido e nós tomássemos a decisão de mudar, para melhor, e seguir em frente com novos objetivos. O meu momento aconteceu no dia 1º de setembro de 2012.

Uma série de eventos ocorridos entre 2010 e 2011 envolvendo questões societárias, perda de amigos (não houve nenhum óbito, mas uma pessoa do meu convívio desde os 8 anos de idade simplesmente foi excluída do meu círculo de amizades) e desarranjos financeiros me levaram a momentos de autocomiseração, questionamentos à vida como ela é e diversos pensamentos frustrantes. Mas enquanto tentava voltar ao controle de tudo, a sobrecarga profissional auto-imposta refletiu na saúde. Mesmo matriculado na academia, isso não fazia muita diferença. A alimentação era a pior que tinha em toda vida, recheada de ruffles, refrigerante, doces e álcool, e as atividades físicas resumiam-se a pagar a mensalidade da academia. Mas, durante um churrasco aonde, além da carne, não faltaram cerveja, refrigerante e batatas onduladas, a realidade me nocauteou. Enquanto meu grande amigo, e padrinho de casamento, John, mostrava sua conquista de ter terminado o Iron Man daquele ano, oportunidade aonde pediu sua então namorada, Karina, em casamento, eu olhava as fotos que meu outro padrinho, Zanon, tirava de todos e no momento em que direcionava meus olhos para o visor da câmera para analisar as fotos tiradas, observava aquela pessoa que ali aparecia. Calças largas e camisa de flanela para disfarçar os excessos do corpo e um boné vermelho, para tentar desviar a atenção das bochechas grandes e gordas.”Isto não está certo.” Alguma coisa precisava mudar. E rápido.

No dia seguinte, uma segunda-feira, peguei um tênis de corrida que havia comprado, talvez com o pensamento de que um bom equipamento me faria, automaticamente, um bom corredor. Na primeira tentativa, consegui fazer jogging por apenas 500 metros. Parei. Andei. Tentei mais um pouco. Achei que ia morrer. Desisti. “Por hoje, é isto”, pensei. No dia seguinte, na academia, pedi para meu instrutor montar um treino que me ajudasse a emagrecer e que melhorasse minha resistência física. Ao mesmo tempo, marquei consulta com nutricionista e fiz muita pesquisa para melhorar minha alimentação. Três meses depois, finalizei minha primeira corrida de 10k. E veio um novo pensamento: assim como meu amigo John, “quero fazer o Iron Man”.

A primeira pergunta que todos me faziam quando eu contava meu novo objetivo era: “a que horas você vai treinar?”. Era pertinente, afinal, não há muito espaço em uma agenda que envolve dois empregos com horas determinadas, uma (nova) família a ser iniciada, com minha noiva, Fernanda, e diversos outros eventos e compromissos que aparecem nas vidas profana e profissional. Uma academia que abre 06h30 e acordar ainda mais cedo foram minhas únicas saídas. O fortalecimento do corpo e o treino de corrida estavam encaminhados. Mas para fazer o Iron Man, ainda faltavam duas coisas: nadar e pedalar.

A última vez em que andei de bicicleta foi aos 14 anos (15 anos atrás) e que entrei em uma piscina com objetivo de nadar fora aos 7 ou 8 anos. Para que não houvesse uma sobrecarga, de energia e de recursos financeiros, decidi primeiro começar a nadar e, depois, comprar uma bicicleta e iniciar os treinos de pedal. Os treinos n’água começaram em março; os de bicicleta acontecerão a partir de abril.

A jornada não será fácil. O apoio da família e amigos será indispensável. Os compromissos serão mantidos e o objetivo perseguido. Há tudo a ser conquistado antes de chegar à glória final. A saída da zona de conforto é o principal motivador. Podemos atingir qualquer sonho, basta sabermos o quanto estamos dispostos a nos dedicar e quão fortemente queremos vencer. Espero igualar o feito do meu amigo. Desejo entrar neste seleto grupo de “Irons”. Mas, acima de tudo, desejo superar a mim mesmo.

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