LIÇÕES APRENDIDAS NO CHALLENGE 2014

Não importa o quão bom ou ruim você é, sempre há o que aprender em cada prova que você dispute. E isso vale para o esporte, para os negócios, para a vida. Considero que minha participação no Challenge ridícula porém, apesar disso, ou até por causa disso várias lições foram tiradas. Aqui vão elas:

1 – Esqueça tudo e apenas faça.

Quem viu o mar de Jurerê Internacional no dia do Challenge Florianópolis se questionou diversas vezes se aquilo era mesmo verdade. Como poderia a “piscininha” de Jurerê estar naquela tormenta, aonde nem os Jet Skis consegui passar a arrebentação. Para quem tem medo do mar, ou que não nada bem (o meu caso), aquela imagem era convidativa para voltar para a cama e desistir da prova. A organização fez seu papel em nos incentivar a continuar ao reduzir a distância. Não poderia fazer a “desfeita” de parar antes mesmo de começar. Fomos.
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As ondas que, facilmente, ficavam entre 0,5m e 0,8m de altura foram, de fato, um dificultador extremo. O mar puxando para a esquerda, também. Era simplesmente impossível ver a bóia, pois a oscilação do mar cobria nossa referência. Precisávamos confiar que o cara da frente estava nadando na direção certa e segui-lo. Era difícil se acostumar com aquele balançar de ondas. Afinal, sempre que tinha treinos, e o mar estava parecido com aquilo, muitos, simplesmente, não entravam n’água. E pagamos preço.

Por diversas vezes, não importa o quanto ensaiemos alguma coisa, na hora da situação real, algo acontece como não programado. Um amigo que trabalhava no controle de qualidade de uma fábrica de eletrodomésticos me disse uma vez: “você pode tentar imaginar tudo o que o usuário faria com o seu produto para tentar deixá-lo mais resistente e seguro. Depois de todos os testes, quando você o coloca no mercado, não leva nem um dia para que uma situação diferente apareça.”  A prova foi assim: por mais que você tivesse treinando em todos os mares que já apareceram para você, dificilmente a situação da última prova do Challenge em Florianópolis surgiu antes. E assim como na vida pessoal ou profissional, o objetivo (contornar as duas bóias e chegar na areia) precisava ser realizado. A única forma era… nadar. Do jeito que fosse. Alongado, encurtado, com técnica ou sem, era preciso chegar ao final; era fazer o melhor que se poderia. E às vezes, a surpresa vem em esquecer, de certa forma, tudo aquilo que você sabe e apenas fazer. Neste caso, consegui terminar a prova dentro do meu tempo médio de treinos. Para um momento de situação adversa, fazendo o que era possível, terminar dentro do esperado é uma vitória.

2 – Você nunca está bom o suficiente. Seja humilde e peça ajuda.

Após terminar um Full Distance Iron Man, você acha que pode praticamente tudo. Assim é quando você consegue aquela promoção no trabalho. Ou tira nota 10 na primeira prova do semestre. O sucesso pode subir a cabeça. E, em certo grau, isso aconteceu comigo. Subestimei o Challenge pelo fato de ser a metade da distância daquela prova casca grossa que fizera em maio de 2014. Entretanto, ao achar que podia tudo, fui derrotado por um inimigo invisível: o vento.

Com média de 16 km/h e rajadas de 30km/h, o “nordestão” maltratou todos os atletas. A saída de Jurerê, com destino ao Floripa Shopping, empolgava os desavisados. A média neste trecho beirava os 40km/h para os amadores. Nós, ilhéus, já sabíamos o que estava por vir. Nada pode ser tão fácil assim. E a volta pegou. Quando descíamos o morro do Jardim da Paz pedalando e o velocímetro não passava de 30km/h, a certeza de que a volta seria sofrida norteava os pensamentos. Forçar era quebra na certa. E eu forcei. E eu quebrei.

A segunda perna da segunda volta foi desumana. Já não tinha forças. Quadríceps, quadril, glúteos. Era tudo parte de uma única dor. Cervical e lombar doloridas pelo drop da bike.  Tantos já haviam me passado que já não restava quase ninguém na minha frente para que eu pudesse marcar um ritmo. Nos quilômetros finais, um amigo apareceu. Cuidando para que não se caracteriza-se o vácuo, deixei o espaço necessário e pedalei em seu ritmo. Mesmo sem saber, me ajudou. Consegui finalizar. Mas parecia ser o fim.

3 – Desistir faz parte da vida. Parar, não.

Desmontei da bike certo de que a deixaria ali e abandonaria a prova. Simplesmente não aguentava mais. Empurrar a magrela até o suporte foi um martírio. Já estava preparado para o pior. Mas na hora que a coloquei no cavalete, algo me disse: “vai.” E resolvi tentar a primeira volta.

2014-12-01 07.10.30A coxa estava dura como uma pedra. Consequência de muita força no ciclismo. Ao sair da área de transição, minhas pernas não respondiam. Resultado de poucos treinos combinados. Me arrastei pela primeira volta. No quilômetro 2,5, mais uma vez pensei em desistir. Chorei. Do terceiro ao quinto quilômetro lágrimas se juntavam ao suor. Ao completar a volta, minha esposa e amigos me deram força. Mas ainda não sabia se ficaria até o final. Foi quando o Black passou.

Não faço a menor ideia de quem ele seja. Mas, quando eu já estava caminhando, no posto de hidratação da Av. das Lagostas, um cara, cujo nome nome no macacão era Black, de uma assessoria de fora da cidade (Core, um uniforme azul), me pegou pelo braço e disse, apontando para o céu: “olha pra cima, tenha fé e corre. superação sempre.” Ai eu tive certeza de que chegaria ao final. Do jeito que fosse, chegaria.

Nessa altura da corrida, contudo, eu já havia feito uma desistência. Numa brincadeira saudável, e e mais dois colegas estávamos disputando uma prova paralela. Qual de nós três seria o campeão entre a trinca? Eu estava em segundo. E desisti de buscar o primeiro. Porém, não parei. Apenas mudei o objetivo e a estratégia para completar o desafio.

Não é incomum colocarmos metas agressivas na vida. Aquele salário. Aquele cargo. Aquela viagem. Ao2014-12-01 07.12.22 longo do caminho, porém, muitas coisas podem acontecer. Afinal, NADA está sob controle. Nem nós estamos sob nosso próprio controle. Vislumbrar seu objetivo não ser completado pode ser um fator “desmotivacional” muito forte. Você pode mudar seu objetivo ao materializar o fato de que ele não será atingido naquele momento, daquele jeito que você gostaria. Porém, se você parar completamente, você simplesmente para de existir. Um dos clichês mais falados em palestras motivacionais é o de que “você pode tudo”. Inclusive, você pode desistir. Mas tenha a certeza de encaixar outra meta logo em seguida, ou você correrá o risco de ficar estagnado. Como dizia nosso querido Chispirito, “é melhor morrer do que perder a vida.”

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