IRONMAN 70.3 MIAMI 2015

Você se pergunta “por que” o suficiente? É um questionamento simples e, muitas vezes parece, bobo. É normal sabermos o motivo pelo qual fazemos alguma coisa. Porém, parece ser mais comum ainda agirmos no automático. E esses são os verdadeiros pontos de inflexão que devem balizar nossas caminhadas aos diversos objetivos que impomos para nós mesmos.

Por mais uma vez, o despertador tocou às 4 da manhã. A rotina foi cumprida: café da manhã reforçado, uniforme vestido, mochila nas costas, e rumo a mais uma prova de triathlon. A razão é sempre o crescimento pessoal. Não sou atleta de profissão. Acho injusto até me considerar “atleta”. Faço parte dos 95% do contingente, formado de amadores, que dão a dimensão e a energia a este esporte. E em Miami, aprendemos bastante.

A preparação é para superar os desafios que aparecem no caminho sem que os tenhamos previstos, e não para cumprir o plano traçado. Esta parte é a fácil.

Supreendentemente, a natação foi o meu ponto forte na prova. Os 1,9km foram nadados em 39:17 (2:02/100mts), uma evolução de 4 minutos em relação ao Meio Iron de Caiobá, em abril deste ano, realizado em 43:11 (2:32/100mts). Natação é algo muito difícil de evoluir, e melhorar em 10% o tempo é certamente uma motivação extra para seguir nos treinos. Porém, nem tudo são flores. O Ironman 70.3 de Miami deixou claro, na primeira etapa, que a prova exigiria mais do que os treinos físicos. A preparação mental  foi decisiva para todos. Logo após a segunda bóia, uma série de águas-vivas estava em nosso caminho. Cerca de quatro me atingiram causando bastante ardência. Parar, reclamar e pedir socorro não era uma saída válida. Precisava nadar até o final. Ao refletir sobre este momento, penso que a preparação, afinal, é para superar os desafios que aparecem no caminho sem que os tenhamos previstos, e não para cumprir o plano traçado. Esta é parte fácil, cartesiana. “Se acontecer isso, faço aquilo. No quilômetro tal, comerei algo salgado.” O plano em que vivemos não é binário nem monocromático. Possui uma infinidade de possibilidades e 256 milhões de cores. Não podemos estar preparados para tudo, mas podemos nos preparar para agir em qualquer situação.

IMG_4219A etapa seguinte, 90 km de ciclismo, foi nos moldes “pega-ratão”. Uma semana antes havia começado a monitorar os ventos da região e sabia que a volta da prova ia ser casca-grossa. O trajeto de ida seguia a direção Noroeste. Com o vento vindo de leste, ele nos empurraria levemente na primeira perna do circuito. Porém, quando voltássemos, em sentido Sudeste, o vento nos pegaria em cheio, e as pernas reclamariam bastante. No meu caso, os dados do GPS nos primeiros 45 km mostram média de 31,21km/h. A segunda perna foi feita com média de 25,34km/h (em alguns trechos a média era ainda menor, cerca de 22km/h). No fim, a média foi de 28km/h. O resultado ficou muito parecido com os dois últimos Meio Iron que participei, Challenge e Caiobá, com médias de 27,9km/h e 28,2km/h, respectivamente.

É preciso conhecer-se para tomar uma atitude.

Esta parte do evento, certamente, é aquela em que mais favorece a desistência. Você está muito cansado, as dores começam a aparecer, passa horas sem o contato da torcida e dificilmente conversa com alguém. Fazer uma “prova fora de casa” agrava ainda mais esta situação Todavia, é o momento que você mais tem para usar para refletir sobre o que te trouxe ali e qual a estratégia usar para terminar a prova. Forçar mais, forçar menos. É preciso conhecer-se para tomar uma atitude. Seguir o que os outros estão fazendo, normalmente, lhe levará à “quebra”, ao fracasso. É o momento, também, em que você mais se espanta com os verdadeiros exemplos deste esporte. Na prova de Miami, duas pessoas completaram o evento carregando outra, que tinha paralisia cerebral. Quando via esta cena, eu pensava em como aquelas duas pessoas, nas cadeiras de rodas, deveriam estar felizes. Muitas vezes, quem é acometido com esta doença, é tratado como um vegetal, um inválido, e pouco aproveitam do que a vida pode nos proporcionar. Ao mesmo tempo, era impossível não imaginar toda a força de vontade, e física, que seus companheiros faziam para lhes puxarem na natação e empurrarem na bike e corrida. Por mais que por onde eles passassem havia uma ovação, sua verdadeira realização se encontrava no final, ao ver o sorriso daqueles a quem ajudaram a completar o impossível.

Meia maratona. A última fronteira. Uma mistura de alívio com massacre final. A corrida é o purgatório do triathlon. O que você paga por todos os excessos que cometeu durante a prova. É, certamente, aonde você vai quebrar. Mas, nem sempre, é a razão de sua quebra. Na corrida é que se aprende a “dosar”. O problema, é que o conhecimento adquirido numa prova só será posto em prática na seguinte. Aquela natação fenomenal e o pedal excelente tem um preço. E ele será pago na hora de correr, quando as pernas estão massacradas, os níveis de glicogênio nas últimas e sua vontade de ir pra casa aflorando a cada quilômetro. O que o mantém ativo é o desejo de completar o objetivo traçado. Se tudo deu certo durante as outras modalidades, você ainda fica mais emocionado por atingir a meta de tempo. Se houve percalços que atrapalharam o desempenho, o importante é sempre chegar no final. “Antes tarde do que nunca.”

Em Miami, a meia maratona foi realmente castigadora. A temperatura média era de 28 graus, porém a sensação térmica passava dos 30, facilmente. Sol à pino. Nem uma nuvem ficou para contar história depois de uma semana de tempo fechado e nublado. A bênção dos turistas; o desespero dos triatletas. O tempo foi de (péssimos) 2h53m. Dez minutos a mais que o Challenge Floripa, aonde fiz minha melhor marca de 2h44m. Há muito o que melhorar. Mas tudo vem por etapas. Objetivo para próxima prova é ficar abaixo das 2h.

Cada prova de triathlon que participo serve para me lembrar de que não existe situação perfeita para ser fazer algo. Você simplesmente executa o seu melhor e faz.

Entre erros e acertos, chegamos ao final. Assim como o dia-a-dia em qualquer situação. No trabalho, em casa, com amigos. Nem sempre tudo sai como planejado. Nem sempre temos todas as respostas. Nem sempre estamos na nossa melhor forma. Mas cada prova de triathlon que participo serve para me lembrar de que não existe situação perfeita para fazer algo. Você simplesmente executa o seu melhor e faz. E está é a resposta para o meu “por que”.

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