EU NÃO QUERO O GUNS N ROSES DE VOLTA

Os Gunners podem me xingar a vontade. Mas eu não quero que os Guns N’ Roses voltem à formação original. Isso seria acabar com minha infância.

Fui apresentado aos Guns N’ Roses aos 8 anos de idade. Era 1992. A essa altura do campeonato, o Guns já era uma mega banda e caminhava para acabar. Eu estava na segunda série do Primeiro Grau (na minha época era esse nome, mas já mudaram tanto que nem sei o que é agora ai no Brasil) e meu amigo Rafael me deu uma fita k7 original para escutar. Fiquei fascinado.

Até aquele momento eu não era fã de nenhuma banda. Mas o rock já era o estilo musical que eu gostava. Meu pai escutava U2, Beatles, Tears for Fears e RPM no seu Monza 1984 verde musgo à álcool. Não existia (graças à Deus) Wesley Safadão nem Meteoro da Paixão. Era uma época de músicas boas.

Quando escutei a introdução de “Welcome to the Jungle” fiquei eufórico. A guitarra, a bateria, o ritmo me contagiaram. Escutava sem saber como reagir. Em “It’s So Easy”, virei um headbanger. Quando chegou em “You’re Crazy” eu já estava fazendo roda punk no meio da sala. Em “Rocket Queen” eu gritava “mais um…. mais um….”.

Naquela época era difícil ter acesso às coisas. Ainda não tinha MTV em casa e ficava sabendo das bandas boas pelos amigos que iam para o exterior e traziam as novidades. Fora isso, na década de 90, a rádio Transamérica, em Florianópolis, tocava bastante rock. Ai fui conhecendo mais coisas.

No prédio aonde morava, tinha uns caras mais velhos. Eu com 8, eles com 15-16. Eles já conheciam das coisas. Escutavam Dead Kennedys, Iron Maiden, Ramones, Ratos de Porão. Fui aprendendo essas coisas com eles. Pegava emprestado fitas k7, vídeos de shows, discos de vinil. Nada que a mulecada de hoje já tenha visto. Ia nas locadoras, e ao invés de procurar por filmes, alugava shows de bandas. Era o máximo.

Num aniversário, Natal, dia das Crianças, sei lá, meu pai me deu um vinil. Era o álbum “Lies! Live Like a Suicide.” Escutava dia e noite. Quase furou. Sabia todas as letras (pelo menos as partes que tinham no disco. Para quem não lembra, às vezes eles reduziam as faixas para caber no “bolachão”).

Tempos depois, em outra data comemorativa destas, meu pai me deu o Appetite em CD. Foi o máximo. Até hoje, quando eu escuto esses álbuns, não sei por que, me vem à mente estar jogando basquete no clube com meu pai e meu irmão. Acho que deve ser por que ganhei, na mesma fase (1992-1994) um tênis do Patrick Ewing que vinha com uma bola. E nessa época, esse era o esporte que eu gostava.

Continuei até 1996 escutando, sendo fã, apenas Guns N’ Roses (conheci o Metallica nessa época, mas isto é outro assunto). Ali já tinha todos os CD’s, e ainda torcia para que a notícia de que a banda tinha acabado fosse mentira. Não poderia algo tão bom ser tão efêmero. Fiquei com raiva de Axl Rose. Só se lia em jornais, e se via na antiga MTV, que ele tinha causado o rompimento da banda. Não acreditava. Continuava a escutar.

Ouvir Guns N’ Roses, o verdadeiro, de 1987-1995, me faz lembrar de quando era criança. Apesar do som agressivo da banda, minha memória é remetida à um tempo bom. Simples. Inocente.

Hoje não existe Guns n’ Roses. Há “Axl Rose e Banda”. E vocal é uma coisa ingrata. Diferente do guitarrista, do baixista e do baterista, a voz muda com o tempo. Os timbres da guitarra, não. O Axl de hoje não será o da minha época de basquete. E se eu o ouvir hoje cantando “Civil War” ao lado de Slash, Duff e Steven/Matt, ele vai matar o Axl, e o Guns, do passado.

E ai, um pedaço da minha infância estará perdida.

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