É BOM TER EMPRÉSTIMO?

Sim. Esta é minha primeira resposta à pergunta do tópico. Porém, economista que sou, o “depende” vem logo em seguida.

É lógico que ter 100% do seu salário em parcelas para pagar é inviável. Você acabará tendo que contrair mais dívidas para pagar o dia-a-dia, e vira uma bola de neve. Porém, sempre defendi a utilização do crédito para duas coisas: ter acesso à bens de consumo de alto valor e fazer investimentos.

Vamos adotar um veículo como exemplo. No primeiro caso, há sempre os economistas e gurus de finanças de plantão que dizem para comprar o carro à vista pois, ao economizar dinheiro mensalmente, ao invés de pagar juros você ganha juros. Essa é o discurso lógico. Há dois fatores importantes, entretanto, a serem considerados: a urgência de se ter um carro; e o duplo desembolso durante o período de poupança.

Neste sentido, a aquisição do automóvel de forma imediata pode ser necessária, por exemplo, para reduzir significativamente o tempo de deslocamento para o trabalho, ou para a faculdade. Há que se levar em consideração este ganho em qualidade de vida e de tempo, que pode ser aproveitado, por exemplo, para desempenhar alguma atividade que seja remunerada como complemento ao trabalho principal.

Da mesma forma, talvez seja difícil para uma pessoa que pense em economizar para adquirir um carro ou um imóvel, ter que ainda pagar pelo transporte público ou pelo aluguel. Isso pode adiar, ainda mais, a conquista, e iniciar um processo de frustração.

No caso de investimentos, minha preferência por capital de terceiros (empréstimos) é ainda maior. Para começar, costumo dizer que “é melhor ‘quebrar’ com dinheiro dos outros do que com o próprio.” De forma a deixar o pensamento mais “econômico”, imagine que você pudesse colocar em prática o seu sonho de ter uma empresa sem precisar de dinheiro. Tudo o que você precisaria era dar um pedaço do seu lucro para o dono do capital. Porém, para fazer isso, é necessário analisar o retorno esperado deste investimento e o custo do capital (taxa de juros).

Comparar o custo de capital com a taxa de retorno é essencial para tomar empréstimo de forma saudável e inteligente. Se você quer montar uma empresa, e projeta que o retorno sobre o capital investido neste negócio será de 30% anualmente e o custo de capital (taxa de juros) é de 20% ao ano, friamente, vale a pena pegar o empréstimo. Afinal, você vai ganhar mais (30%) do que vai pagar (10%). Ainda vai sobrar uma “gordura” de 10% no seu caixa.

O segundo ponto a ser analisado ao se tomar um empréstimo para fazer investimento é sua forma de amortização, ou seja, como será pago o valor principal ao dono do dinheiro. No Brasil, é comum que logo 30 dias depois do tomado o recurso já seja necessário pagar, além do juros, uma parte do principal. Assim, depois de algum tempo (12, 24, 36 meses), quita-se toda a dívida.

Esta forma de amortização pode ser destrutiva para o caixa da empresa pois, mesmo sobrando uma diferença entre o custo de capital e a taxa de retorno, ela pode não ser o suficiente para devolver o principal para o credor e ainda sobrar algo para o dono.

Neste caso, há que se balancear o quanto de empréstimo o empreendedor deve tomar. Na prática, é pouco provável quem alguém conceda financiamento de 100% do projeto. Os bancos costumam trabalhar com algo entre 50-70% por dois motivos: a) fazer com que o empreendedor coloque seu próprio couro em risco (skin in the game) fará com que ele se dedique mais e; b) o banco faz uma análise da geração de fluxo de caixa do negócio para saber se haverá condições de ser pago. Assim, a instituição financeira ajustará o total a ser emprestado conforme o quanto a empresa fatura mensalmente.

Alavancagem não é pecado. Tem um sonho na cabeça? Não se limite por falta de recursos próprios. Existem várias formas de se financiar, seja com bancos, seja com fundos, seja com plataformas digitais especializadas. O importante é tomar a decisão de forma inteligente e fazer acontecer.

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